TRANSFUSÃO DE SANGUE EM CÃES E GATOS

A transfusão de sangue tem ganhado destaque na medicina veterinária, especialmente em situações de emergência, cirurgias complexas e casos críticos. Este artigo visa oferecer uma visão técnica e aprofundada sobre o procedimento em cães e gatos, abordando desde as indicações clínicas e tipagem sanguínea até o planejamento, condução da transfusão e possíveis reações transfusionais.

Indicações para Transfusão

As principais indicações para transfusão incluem:

Hemólise aguda imunomediada: Embora rara em cães com anticorpos naturais baixos, pode ocorrer após sensibilização prévia por transfusão ou gestação, levando de 7 a 10 dias para a produção de anticorpos. Em gatos, é mais comum, devido à presença de anticorpos naturais contra outros tipos sanguíneos, resultando em reações mais graves, especialmente em receptores B recebendo sangue de doadores A.

Hemólise tardia imunomediada: Mais comum em cães, resulta da formação de anticorpos contra as hemácias transfundidas, levando a uma queda inesperada do hematócrito de 2 até 21 dias pós-transfusão.

Perda sanguínea aguda: Traumas, cirurgias ou sangramentos gastrointestinais severos podem levar à hipovolemia e redução da capacidade de transporte de oxigênio. Nesses casos, a transfusão de sangue total pode ser indicada para restaurar tanto o volume circulante quanto a capacidade de transporte de oxigênio.

Anemias não regenerativas graves: Condições como falência da medula óssea ou doenças crônicas podem causar anemia severa que requer suporte transfusional. Doenças como a leucemia felina (FeLV) ou a doença renal crônica podem levar a anemias severas.

A decisão de iniciar a terapia transfusional deve ser baseada em uma avaliação clínica completa do paciente, considerando o histórico, sinais clínicos e resultados de exames laboratoriais complementares. Embora não existam diretrizes universais e objetivas para desencadear transfusões, o objetivo principal em pacientes anêmicos é aumentar o hematócrito pós-transfusional para 25% a 30% em cães e para 15% a 20% em gatos.

Indicações de hemocomponentes

Hemocomponente

Indicações

Concentrado de Hemácias (CH)

Anemias: aumentar a capacidade de oxigenação, anemia aguda, anemia crônica, anemia atribuível à doença hemolítica ou à disfunção eritropoiética, aumentar o hematócrito.

Concentrado de Plaquetas (CP)

Trombocitopenia: indicação profilática, recomendadas para pacientes que requerem um procedimento invasivo (cirúrgico) com contagens menores que 50.000/mL.

Plasma Rico em Plaquetas (PRP)

Trombocitopenia, hemofilia A, Doença de Von Willebrand, coagulação intravascular disseminada (CID).

Plasma Fresco Congelado (PFC)

Coagulopatias hereditárias (hemofilias), controle de sangramentos, pré-operatórios, Doença de Von Willebrand, coagulopatias adquiridas.

Plasma Congelado (PC)

Hipoproteinemia, hipoglobulinemia: indicado para tratamento de hipoproteinemias em curto prazo.

Crioprecipitado (CRIO)

Hemofilia, Doença de Von Willebrand, reposição de fator VIII, fator XIII e fibrinogênio.

Sangue Total Fresco (STF)

Anemia hipovolêmica, anemia com alterações hemostáticas.

É importante notar que a decisão de transfundir e o tipo de hemocomponente a ser utilizado dependem da condição clínica do paciente, dos exames laboratoriais e da avaliação do médico veterinário. A escolha entre sangue total e hemocomponentes visa um tratamento mais específico e a minimização de riscos.

Tipagem sanguínea

A tipagem sanguínea e os testes de compatibilidade (prova cruzada) são etapas preconizadas para minimizar o risco de reações transfusionais.

Em cães, pelo menos 12 grupos sanguíneos já foram descritos, sendo o sistema DEA (Dog Erythrocyte Antigen) o mais relevante clinicamente. Devido à baixa porcentagem de cães com anticorpos naturais clinicamente significativos, o risco de reação hemolítica aguda durante a primeira transfusão é baixo. No entanto, anticorpos contra antígenos eritrocitários caninos (DEAs 3, 5 e 7) podem ocorrer naturalmente em cães sem histórico de transfusões prévias.

Em gatos, o sistema de grupos sanguíneos mais comumente descrito é o sistema AB, com três tipos principais: A, B e, mais raramente, AB. Ao contrário dos cães, os gatos possuem, desde a infância, aloanticorpos naturais de grande importância clínica. Gatos do tipo A têm aloanticorpos anti-B fracos, enquanto gatos do tipo B têm aloanticorpos anti-A fortes e em altos títulos, o que pode resultar em uma reação transfusional fatal mesmo com pequenas quantidades de sangue transfundido de um gato tipo A. Gatos do tipo AB não possuem aloanticorpos contra os tipos A nem B.

Testes de Compatibilidade

O teste de compatibilidade ou prova cruzada, torna-se extremamente importante, principalmente em pacientes que já foram previamente transfundidos, pois pode ter ocorrido sensibilização do sistema imune após a exposição aos antígenos da primeira transfusão.

Trata-se de um exame imunológico que identifica a presença de anticorpos no sangue do receptor contra antígenos presentes nas hemácias do doador, e vice-versa. Mesmo quando a tipagem sanguínea é realizada, o teste de compatibilidade continua sendo necessária para detectar incompatibilidades causadas por antígenos não identificados ou sensibilizações anteriores. Em espécies como os gatos, que possuem aloanticorpos naturais, e em cães previamente transfundidos, esse teste contribui diretamente para a segurança da transfusão.


Planejamento da transfusão 

Avaliação Clínica e Laboratorial: A necessidade de transfusão deve ser baseada na condição clínica do animal, incluindo sinais de anemia ou choque grave como taquicardia, taquipneia, mucosas pálidas e intolerância ao exercício, juntamente com a avaliação do grau de anemia pelo hematócrito e marcadores de oxigenação celular prejudicada, como o aumento da concentração de lactato. A escolha entre sangue total ou hemocomponentes é influenciada pelo tipo de anemia (normovolêmica ou hipovolêmica) e pela disponibilidade de produtos. A terapia transfusional é indicada em casos de perda aguda de sangue para restaurar o volume circulante e a capacidade de transporte de oxigênio. Em animais instáveis com perda aguda de 30%-40% do volume sanguíneo circulante, ou perda de sangue associada à hemorragia em curso (hematócrito/hemoglobina), a transfusão pode ser necessária.

Volume a ser Transfundido: A quantidade de sangue ou hemocomponente a ser transfundida depende do peso do animal, do grau de anemia, da presença de hemorragia contínua e do objetivo da transfusão. Planejar com base na fórmula abaixo:

Em geral, antes de adequar o cálculo acima é importante sempre respeitar o volume de sangue que o animal deve receber. Pode-se seguir a estimativa de volume a ser transfundido abaixo:

20mL/Kg sangue total = hematócrito em 10% (cães)

10mL de sangue total = hematócrito em 11% (gatos)

10mL/Kg concentrado de hemácias = hematócrito em 10%

 

Antes de iniciar a transfusão: os parâmetros fisiológicos básicos do animal devem ser documentados. Recomenda-se o uso de um equipo com filtro (170–260μm) para remover fibrina e microagregados. O sangue não deve ser administrado simultaneamente com soluções hiper ou hipotônicas ou soluções contendo cálcio. Solução salina isotônica (NaCl 0,9%) é recomendada para diluição de hemocomponentes, se necessário.

Velocidade de Infusão: A velocidade de infusão deve ser ajustada à condição clínica do paciente. Em animais cardiopatas ou nefropatas, deve-se respeitar a velocidade de 1 a 2 mL/kg/h. Em hemorragias graves, a velocidade pode chegar a 22 mL/kg/h. Em gatos, o volume inicial a ser transfundido é de 0,25 mL/kg/h nos primeiros 30 minutos. Em animais normovolêmicos, o edema pulmonar é um risco potencial se a velocidade for muito alta.

Via de Administração: Os produtos sanguíneos geralmente são administrados por via intravenosa pelas veias cefálica, safena ou jugular. Em filhotes ou animais com circulação periférica reduzida, a via intraóssea pode ser utilizada. O menor tamanho intravenoso de cateter recomendado para transfusão sanguínea em cães é 20G, e em gatos 22G.

Equipamentos: A infusão de produtos sanguíneos deve ser realizada com um kit de transfusão específico, com filtro sem látex para remover coágulos e outros materiais particulados. Bombas de fluido não devem ser usadas para transfusões de hemácias, a menos que validadas para esse uso, para evitar hemólise. O sangue não deve ser administrado simultaneamente com soluções hiper ou hipotônicas, nem com soluções contendo cálcio ou glicose 5%.

Reações Transfusionais

As reações transfusionais podem ser classificadas como agudas ou tardias e podem resultar de causas imunológicas ou não imunológicas. É imprescindível que o clínico reconheça essas reações no início para minimizar os danos.

As reações agudas imunológicas incluem:

Reação hemolítica aguda: Em gatos, especialmente em receptores B recebendo sangue A. Os sinais clínicos podem incluir febre, taquipneia/taquicardia, tremores, vômito, hipotensão, hemoglobinúria, oligúria e choque. Em gatos, vocalização, defecação, micção, taquipneia seguida de bradipneia e apneia também podem ocorrer.

Reações febris não hemolíticas: Mais comuns em cães e gatos, geralmente manifestam-se como um aumento de 1°C na temperatura corporal durante os primeiros 30 minutos de transfusão.

Reações alérgicas (hipersensibilidade): Podem variar de urticária e prurido a anafilaxia grave.

As reações agudas não imunológicas incluem:

Sobrecarga de volume: A hipervolemia pode resultar da transfusão rápida ou excessiva de sangue total ou de plasma, especialmente em animais com comprometimento cardíaco ou renal, levando a edema pulmonar.

Contaminação bacteriana: Pode ocorrer se o sangue não for coletado ou armazenado adequadamente.

Dano mecânico ou térmico às hemácias: Manuseio inadequado do sangue pode causar hemólise.

As reações tardias imunológicas incluem:

Hemólise tardia: Mais comum em cães, ocorre devido à formação de anticorpos contra antígenos eritrocitários que não foram detectados inicialmente.

Isoeritrólise neonatal: em gatos, pode ocorrer em filhotes de gatas tipo B que recebem colostro contendo anticorpos anti-A.

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